Da raiz ao satélite: novo boletim reúne avanços nos territórios e nas agendas do oceano
- comunicacao5558
- 30 de jul.
- 9 min de leitura
Edição de julho do boletim trimestral do Linha D'Água apresenta o Relatório Bianual 2024–2025 e destaca ações sobre pesca artesanal, manguezais, justiça climática, alimentação escolar e políticas públicas do mar.

A edição de julho de 2026 do boletim trimestral chega com um marco especial para o Instituto Linha D’Água: a publicação do nosso Relatório Bianual 2024–2025. Mais do que uma prestação de contas, o documento celebra uma travessia coletiva construída ao longo de dois anos de presença nos territórios, de fortalecimento da pesca artesanal sustentável, de articulação em redes e de incidência em agendas nacionais e internacionais ligadas ao oceano, ao clima e à sociobiodiversidade.
O biênio também marca a consolidação de um novo ciclo institucional, iniciado a partir da celebração dos 10 anos do Linha D’Água. Nesse período, reorganizamos nossa atuação em três programas estratégicos (Territórios Costeiros e Marinhos, Pesca Artesanal Sustentável e Políticas Públicas do Mar), reafirmando nosso compromisso com quem cuida dos maretórios todos os dias.
Das iniciativas com Cooperpesca, Olha o Peixe!, FARSol, Núcleo Perequê, Articulação da Ilha do Cardoso, CONFREM, AMEX e PainelMar à presença em espaços como a COP16, UNOC3 e a COP30, o relatório mostra como seguimos conectando as raízes dos territórios às grandes decisões sobre o futuro do oceano.
É o nosso caminho da raiz ao satélite: fortalecer organizações, ampliar redes e levar as vozes dos Povos do Mar aos espaços onde políticas públicas, investimentos e prioridades globais são definidos.
Acesse a página do relatório no site do Linha D’Água, conheça os principais resultados do biênio e baixe a publicação completa.
Acompanhe os principais destaques desta edição.
POLÍTICAS PÚBLICAS DO MAR
Eólicas offshore: perguntas necessárias antes de avançar sobre o oceano

O Instituto Linha D’Água lançou a Nota Técnica “Eólicas Offshore — Para quê? Para quem?”, elaborada pelas professoras Clarice Ferraz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Flávia Mendes de Almeida Collaço, da Universidade de São Paulo (USP). A publicação propõe uma reflexão urgente sobre a expansão da geração eólica offshore no Brasil, em um momento de regulamentação da atividade e de crescente pressão pela abertura de áreas marítimas para novos empreendimentos.
O documento parte de perguntas centrais: o Brasil precisa, de fato, dessa fonte para garantir seu abastecimento energético? Quem pagará os custos dessa expansão? E quais impactos poderão recair sobre territórios costeiros e marinhos historicamente ocupados por comunidades pesqueiras, quilombolas, extrativistas e outros povos e comunidades tradicionais?
A Nota Técnica lembra que o Brasil já possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Em 2024, cerca de 90% da matriz elétrica brasileira veio de fontes renováveis. Ao mesmo tempo, o país já enfrenta desafios para integrar a geração eólica e solar existente: em 2025, 20,6% da energia solar e eólica disponível foi desperdiçada, com prejuízo estimado em R$ 6,5 bilhões.
Além dos desafios operacionais e tarifários, a publicação reforça que o oceano não pode ser tratado como uma superfície vazia disponível à instalação de infraestrutura. Para os Povos das Águas e do Mar, ele é território de trabalho, cultura, alimentação, memória, mobilidade e reprodução da vida comunitária.
Para o Linha D’Água, a transição energética deve ser planejada, democrática, territorialmente sensível e socialmente justa. Antes de leiloar o oceano, o Brasil precisa responder para quê, para quem, a que custo e com quais garantias de participação e proteção dos territórios tradicionais.
Conheça os principais pontos no artigo publicado no site do Linha D’Água, acompanhe o carrossel especial no Instagram e baixe a publicação completa.
Oceano no centro das decisões: sessão no Senado reúne ciência, comunidades e sociedade civil

No Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, o Senado Federal realizou uma sessão especial dedicada aos desafios e às prioridades da agenda costeira e marinha brasileira. O encontro reuniu representantes do poder público, da ciência, da sociedade civil e da pesca artesanal, reforçando a urgência de transformar compromissos internacionais em leis, políticas públicas e ações concretas para a conservação e o uso sustentável do oceano.
A sessão contou com a mobilização do PainelMar, do GT Mar da Frente Parlamentar Ambientalista, da Oceana Brasil e de organizações parceiras. Entre os temas debatidos estiveram o fortalecimento da governança costeira e marinha, o Planejamento Espacial Marinho, a gestão sustentável da pesca, a proteção dos territórios tradicionais e o enfrentamento da poluição causada pelos plásticos.
Representando o PainelMar e o GT Mar, Carolina Cardoso ressaltou o papel decisivo do Congresso Nacional na construção do futuro do oceano brasileiro. Já a professora Carina Costa de Oliveira, da Universidade de Brasília, lembrou que tratados internacionais dependem de legislação, orçamento e participação social para transformar a realidade, além do reconhecimento dos direitos e conhecimentos dos povos tradicionais.
A voz dos territórios foi levada ao plenário por Carlos Alberto Pinto dos Santos, o Carlinhos, pescador artesanal e liderança da CONFREM e da AMEX. Em sua fala, ele defendeu a consolidação dos territórios tradicionais pesqueiros e a permanência das comunidades em seus locais de moradia, trabalho e cultura. “Nós não causamos o que o mar sofre hoje, mas sofremos junto com ele”, afirmou.
Para o Linha D’Água, a sessão ampliou a presença das agendas de oceano e clima nos espaços de decisão e reforçou a importância da participação efetiva da sociedade civil e das lideranças territoriais. Confira na íntegra.
TERRITÓRIOS COSTEIROS E MARINHOS
Novo artigo no ((o))eco alerta para o avanço do mar e a urgência da justiça climática na Ilha do Cardoso

Em novo artigo publicado na coluna de Henrique Kefalás no portal ((o))eco, pesquisadores e lideranças comunitárias analisam os efeitos do avanço do mar sobre as comunidades tradicionais da Ilha do Cardoso, no litoral sul de São Paulo.
Assinado por Henrique Kefalás, Camila Cavalari, Tatiana Cardoso, Dauro Marcos do Prado, Pedro Torres, Erika Pires Ramos e Giovanna Gini, o texto conecta a realidade local a um cenário global de elevação do nível do mar, erosão costeira e deslocamentos climáticos.
Casos registrados no Pacífico, no Panamá e em territórios brasileiros mostram que a Ilha do Cardoso não está isolada. No Estreito do Melão, o cordão arenoso encolheu de 39 para aproximadamente nove metros em pouco mais de um ano, ampliando o risco de rompimento e de impactos sobre cinco comunidades.
No Itacuruçá e na Pereirinha, 34 famílias já enfrentam perdas materiais e dificuldades para permanecer no território. Embora reconheça avanços nas medidas de contenção da erosão, incluindo a proposta de instalação de tubos geotêxteis, o artigo defende políticas de adaptação que garantam infraestrutura, alternativas às famílias ameaçadas e proteção dos modos de vida.
A publicação também destaca a mobilização da Articulação de Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso e reforça que as respostas à crise climática devem garantir transparência, consulta livre, prévia e informada e participação efetiva das comunidades. Leia o artigo na íntegra no portal ((o))eco.
Do protagonismo das mulheres à articulação internacional: encontros fortalecem a pesca e a defesa dos manguezais

Entre junho e julho, o Linha D’Água acompanhou e apoiou uma agenda que conectou o protagonismo das mulheres da pesca à articulação latino-americana pela defesa dos manguezais. Celebrações, intercâmbios e mobilizações mostraram que proteger esses ecossistemas exige fortalecer as comunidades que vivem, trabalham e constroem seus modos de vida nos maretórios e territórios tradicionais costeiros e marinhos.
Essa trajetória começou em Canavieiras, onde os 20 anos da Reserva Extrativista e os 17 anos da Rede de Mulheres de Comunidades Extrativistas Pesqueiras reuniram mais de 800 mulheres, entre os dias 3 e 7 de junho de 2026.
O Instituto apoiou uma comitiva feminina, formada por duas integrantes da equipe do Linha D'Água e por nove representantes de territórios costeiros e marinhos do Litoral Sul de São Paulo, ampliando trocas sobre autonomia econômica, organização comunitária, gestão produtiva e incidência política.
Poucos dias depois, em Recife, o Instituto Linha D’Água teve a alegria de apoiar e participar das celebrações pelos 20 anos da Articulação Nacional das Pescadoras - ANP, representado por Camila Cavalari, analista de Desenvolvimento Institucional. O encontro reafirmou a identidade profissional das pescadoras, sua presença em todas as etapas da cadeia da pesca e a luta por direitos sociais, trabalhistas e territoriais.
A força dessas articulações também ganhou dimensão internacional em Lorica, na Colômbia, durante o encontro de retomada da Redmanglar Internacional. Henrique Kefalás participou ao lado de Carlinhos, liderança da CONFREM, de uma agenda que reuniu representantes de países latino-americanos para reativar a rede, fortalecer alianças e compartilhar soluções construídas pelos próprios povos em defesa dos manguezais, dos direitos territoriais e da justiça socioecológica - com presença decisiva das mulheres nos processos de formação e mobilização.
De volta à RESEX Canavieiras, a Semana dos Manguezais, realizada de 22 a 26 de julho, reuniu cultura, memória e participação comunitária. Organizada pela AMEX, pela Rede de Mulheres, pela CONFREM Brasil e por parceiros, a programação teve como destaque a primeira Olimpimangue, com atividades como cata de mariscos, filetagem de camarão e lançamento de tarrafa, valorizando conhecimentos, práticas tradicionais e o envolvimento das comunidades.
As mobilizações da Redmanglar Internacional e de organizações parceiras também recuperaram o sentido político do 26 de julho, Dia Internacional de Defesa do Ecossistema de Manguezais, instituído a partir da resistência das comunidades de Muisne, no Equador, em 1998.
Mais do que uma celebração, a data reafirma a luta dos povos pelos manguezais como territórios de alimento, cultura, autonomia, direitos e futuro. Conheça o Manifesto dos Povos do Manguezal, do Mar, dos Rios e das Margens, publicado pela Redmanglar, e confira o carrossel e o artigo especial do Linha D’Água sobre a história e a importância dessa mobilização.
PESCA ARTESANAL SUSTENTÁVEL
Do Mar para a escola: Cooperpesca avança no PNAE e se consolida como referência

A Cooperpesca Artesanal avançou no acesso às compras públicas com seis entregas para a alimentação escolar de Ilha Comprida (SP), totalizando 710 quilos de pescado. O acordo prevê novas remessas de 160 quilos a cada dois meses e pode alcançar até seis mil quilos de pescado processado.
Viabilizada pelo Chamamento Público da Agricultura Familiar de 2026, a parceria aproxima a produção dos pescadores e pescadoras do Vale do Ribeira das refeições oferecidas aos estudantes. O avanço foi acompanhado por representantes do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) em uma missão técnica na cooperativa e nas escolas do município.
Durante a visita, a equipe conheceu as etapas de recebimento, filetagem, congelamento, armazenamento, transporte e distribuição do pescado, além dos cuidados sanitários e de rastreabilidade. A experiência foi destacada em umpost especial do FNDE e do Ministério da Educação (MEC), que apresenta o caminho percorrido pelo pescado artesanal até chegar ao prato dos estudantes.
Além de ampliar o acesso a uma alimentação nutritiva, as compras públicas geram renda, valorizam os saberes locais e fortalecem cadeias produtivas de baixo impacto. Do mar à escola, a iniciativa mostra como políticas públicas bem articuladas podem alimentar, educar e transformar.
Da captura ao consumo: pesca artesanal no centro do Marco Global de Biodiversidade

O Instituto Linha D’Água participou, em 9 de junho, de um webinar internacional dedicado às contribuições da pesca para a implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. Organizado pelo Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica, pela FAO e pela UICN, o encontro reuniu governos, sociedade civil, especialistas e representantes do setor produtivo.
O debate destacou que a pesca é mais do que uma atividade produtiva: representa alimento, trabalho, cultura, conhecimento e manejo cotidiano da biodiversidade. Por isso, a implementação das metas globais deve envolver toda a cadeia, da captura ao consumo, e reconhecer as contribuições das comunidades pesqueiras.
Henrique Kefalás, coordenador executivo do Linha D’Água e presidente do conselho do ICSF, defendeu que pescadores e pescadoras artesanais sejam reconhecidos como detentores de direitos e conhecimentos. Também alertou para lacunas de participação, financiamento e governança que podem ampliar conflitos e desigualdades nos territórios.
Ao afirmar que “pescadores artesanais não querem pescar mais, querem pescar melhor”, Henrique reforçou a importância de valorizar o pescado, reduzir perdas e fortalecer mercados sustentáveis.
Para o Linha D’Água, o encontro conectou as demandas dos territórios às decisões globais sobre biodiversidade, sistemas alimentares e justiça socioambiental. Confira o resumo completo do webinar em artigo no nosso site.
INSTITUCIONAL & EVENTOS
Oceano é território, alimento e vida: Linha D’Água leva a filantropia de retaguarda ao debate climático

O Instituto Linha D’Água participou, em 19 de maio, do evento “Nexo Oceano-Clima: oportunidades de investimentos e ações”, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade durante a Brazil Climate Investment Week 2026. Felipe Leal, Diretor Fundador do Instituto, integrou o painel “Papel da filantropia no nexo Oceano-Clima”, que reuniu organizações filantrópicas para discutir como investimentos podem fortalecer a conservação, a adaptação e a resiliência dos territórios costeiros e marinhos.
Felipe defendeu que os Povos das Águas e do Mar estejam no centro das políticas e dos investimentos em oceano e clima. Comunidades pesqueiras, caiçaras, quilombolas e indígenas sustentam territórios fundamentais para a biodiversidade, a segurança alimentar e a resiliência climática.
O Instituto apresentou sua concepção de filantropia de retaguarda: uma atuação voltada ao fortalecimento de lideranças, organizações e governanças comunitárias, conectando as demandas dos territórios às políticas públicas, à ciência e às agendas globais.
A participação reforçou que uma economia azul só será sustentável com justiça social. O oceano não é uma fronteira econômica vazia, mas território, cultura, alimento, identidade e vida. As comunidades precisam ser protagonistas e coautoras das soluções. Confira artigo sobre o resumo do evento.
🌊 Seguimos juntos nessa maré de conquistas e desafios!





Comentários