Da captura ao consumo: por que a biodiversidade precisa ouvir quem vive da pesca
- comunicacao5558
- 15 de jun.
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Em webinar internacional, especialistas discutiram como a implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (GBF) depende do engajamento de toda a cadeia da pesca, da captura ao consumo, e do reconhecimento de pescadores e pescadoras como detentores de direitos e de conhecimento e aliados da conservação.

Realizado no dia 9 de junho de 2026, o webinar internacional “Pesca e o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal: fortalecendo o engajamento ao longo das cadeias de valor da pesca, da captura aos consumidores” reuniu representantes de governos, organismos internacionais, sociedade civil, setor produtivo e especialistas para discutir como a pesca pode contribuir para a implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (KMGBF), considerando suas conexões com múltiplas metas e com atenção especial às metas 5, 9, 10 e 15.
O debate integrou a Série de Webinários das Comunidades de Prática, organizada pelo Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pelo Grupo de Especialistas em Pesca da Comissão de Gestão de Ecossistemas da UICN (IUCN/CEM/FEG). O Coordenador Executivo do Instituto Linha D’Água, Henrique Kefalás, participou do painel por sua atuação como presidente do conselho do International Collective in Support of Fishworkers (ICSF), organização internacional dedicada ao fortalecimento da pesca de pequena escala e dos direitos de pescadores e pescadoras.
Ao longo do encontro, uma mensagem atravessou as diferentes falas: a pesca não pode ser tratada apenas como uma atividade que gera impactos sobre a biodiversidade. Ela também é sistema alimentar, base de sustento, cultura, economia territorial, prática de manejo e forma cotidiana de relação com ecossistemas costeiros, marinhos e continentais.
Na abertura, Joseph Appiott, Coordenador de Biodiversidade Marinha, Costeira e Insular da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), lembrou que o Marco Global é composto por 23 metas orientadas à ação até 2030, muitas delas diretamente relevantes para os oceanos e para o setor pesqueiro. O webinar colocou atenção especial nas metas relacionadas ao uso sustentável de espécies, à contribuição da biodiversidade para as pessoas, aos sistemas produtivos sustentáveis e ao engajamento das cadeias de valor.
Kim Friedman, Oficial Sênior de Recursos Pesqueiros da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, trouxe uma leitura importante para enquadrar o debate. Segundo ele, o Marco Global deve ser entendido como um “pacote interconectado e dinâmico de medidas”, e não como uma lista isolada de metas. Ao mesmo tempo, reconheceu que esse conjunto pode ser difícil de traduzir para o setor pesqueiro, justamente por sua amplitude, linguagem técnica e múltiplas conexões.
Um dos pontos centrais levantados por Kim foi a necessidade de reposicionar a pesca dentro da agenda da biodiversidade. Ele observou que, em muitos processos nacionais e internacionais, a pesca ainda aparece de forma periférica, embora os ecossistemas aquáticos concentrem uma parcela decisiva da vida no planeta e sejam essenciais para segurança alimentar, renda e conservação. Para ele, o setor precisa deixar de ser visto como “parte do problema” para ser reconhecido como aliado da conservação da biodiversidade: “precisamos mudar a narrativa sobre a importância da pesca”, destacou. Essa mudança de narrativa atravessou todo o webinar.
Quando a biodiversidade encontra quem vive dos territórios pesqueiros
Eduardo Sfoglia, Chefe da Assessoria Especial Internacional do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), reforçou a dimensão social, territorial e ecológica da pesca no país. Ele lembrou que o setor pesqueiro brasileiro envolve cerca de 1,8 milhão de homens e mulheres, dos quais 95% são pescadores artesanais e aquicultores familiares, distribuídos por mais de 8 mil quilômetros de costa e 12 grandes bacias hidrográficas.
Para Eduardo, essas populações estão onde o Estado muitas vezes não chega e detêm conhecimentos que nenhuma política pública pode ignorar. Em sua fala, definiu pescadores e pescadoras como “os verdadeiros guardiões” da biodiversidade aquática brasileira. Sua fala reforçou que políticas de biodiversidade só serão efetivas se dialogarem com a realidade dos territórios e com as pessoas que sustentam modos de vida diretamente.
Foi nesse contexto que Henrique Kefalás destacou dois instrumentos especialmente reconhecidos pelas comunidades pesqueiras: as Diretrizes Voluntárias para Garantir a Pesca de Pequena Escala Sustentável no Contexto da Segurança Alimentar e da Erradicação da Pobreza e o Apelo à Ação da Pesca Artesanal. Segundo ele, esses instrumentos mostram que pescadores e pescadoras querem participar e têm propostas concretas.
Mas essa participação exige mais do que boa vontade institucional. “É preciso que pescadores artesanais e comunidades pesqueiras sejam reconhecidos como legítimos detentores de direitos e conhecimentos, não apenas como partes interessadas a serem consultadas em alguma etapa do processo”, afirmou.
A distância entre os marcos globais e os territórios também foi apontada por Henrique como uma barreira central. Segundo ele, “a arquitetura formal do Marco Global de Biodiversidade ainda é amplamente inacessível às comunidades pesqueiras no território”. E essa distância não é apenas técnica: “a linguagem, os prazos e a cultura institucional criam distância”. Ainda assim, o setor tem buscado se aproximar desse debate: “o setor pesqueiro está engajando, está tentando, mas o marco ainda não chega plenamente àqueles que mais precisam dele e que mais contribuem para entregá-lo”.
Outros participantes reforçaram a necessidade de transformar a forma como a pesca é chamada para os processos de decisão. Elisabetta Betulla Morello, Oficial Sênior de Pesca da Comissão Geral de Pesca do Mediterrâneo da FAO (FAO/GFCM), reforçou que a gestão pesqueira já contribui, na prática, para vários objetivos do Marco Global, mesmo quando isso não é apresentado explicitamente nos termos do acordo.
Ela destacou medidas como planos de manejo plurianuais, proteção espacial, mitigação de capturas incidentais, ações sobre mudanças climáticas, lixo marinho, entre outros exemplos. Para Elisabetta, engajar o setor pesqueiro exige entender os fatores que orientam o comportamento humano e fazer dos atores da pesca parceiros ativos, não destinatários passivos de regras.
Representando o setor produtivo, Ivan Lopez, Diretor-Geral da Pesquera Ancora, trouxe ao debate uma crítica à forma como a pesca costuma ser comunicada nos espaços de conservação. Para ele, a linguagem da biodiversidade muitas vezes chega ao setor de forma distante, técnica ou acusatória.
“Temos um longo caminho a percorrer”, afirmou, reconhecendo que o setor pesqueiro precisa se engajar mais, mas também apontando que muitos debates não consideram suficientemente que a pesca produz alimento. Em sua leitura, discutir biodiversidade sem discutir segurança alimentar, soberania alimentar e produção de alimento de qualidade cria uma desconexão importante.
Margot Angibaud, Assessora Sênior de Políticas da Europêche, também reforçou que a pesca depende de ecossistemas saudáveis para entregar alimento de qualidade. Segundo ela, os objetivos globais de biodiversidade precisam reconhecer melhor os avanços já realizados pelo setor, especialmente em inovação, redução de emissões, manejo, rastreabilidade e adaptação. Margot chamou atenção para a necessidade de olhar a pesca de forma ampla, considerando dimensões ambientais, sociais e econômicas: segurança no trabalho, cultura, direitos sociais, mercado, exigências sanitárias, diversidade de consumo e diversidade das frotas.
As falas convergem em um ponto essencial: acordos internacionais, metas globais e processos multilaterais só ganham força quando conseguem dialogar com quem pesca, produz alimento e vive os territórios todos os dias.
Quando a conservação chega ao território: lacunas, riscos e caminhos para a pesca no Marco Global
Na parte final do debate, Henrique aprofundou uma reflexão que dialoga diretamente com a forma de atuação do Instituto Linha D’Água: a necessidade de conectar a base territorial às arenas globais.
Para ele, é preciso ir além de intervenções baseadas em projetos e investir na capacidade de longo prazo dessas comunidades pesqueiras e de suas organizações. “Sem esse apoio contínuo no nível do território, o engajamento com o Marco Global de Biodiversidade se torna performático”, afirmou. A frase aponta para um risco comum das agendas internacionais: produzir compromissos ambiciosos, mas sem garantir que recursos, poder de decisão e capacidade institucional cheguem a quem cuida da biodiversidade na prática.
Ao listar os principais desafios e lacunas, os participantes apontaram convergências importantes. Ivan resumiu o desafio em “linguagem e comunicação”. Elisabetta destacou que “a contribuição da pesca nem sempre é plenamente capturada nos marcos de monitoramento e reporte do Marco Global”. Henrique apontou uma lacuna de acessibilidade, representação, governança e conhecimento, além de alertar que a meta 30x30 pode gerar conflitos com pescadores artesanais quando medidas de conservação são desenhadas sem sua participação.
Já Eduardo reforçou a necessidade de apoio a dados, monitoramento e financiamento. Margot Angibaud destacou como lacuna a necessidade de discutir melhor conceitos-chave. Todas as atividades humanas têm impacto, afirmou, e o debate precisa enfrentar de forma madura quais impactos são aceitáveis, como são distribuídos e quais trade-offs estão em jogo quando se fala de alimento, energia, conservação e uso do espaço marinho.
Na síntese do debate, Mark Dickey-Collas, coordenador do Grupo de Especialistas em Pesca da Comissão de Gestão de Ecossistemas da UICN (UICN/CEM/FEG), destacou que os participantes haviam demonstrado algo fundamental: existem muitos exemplos de contribuições positivas da pesca para a biodiversidade. O painel trouxe evidências relacionadas à restauração, áreas conservadas, uso sustentável, manejo espacial, governança, alimentação, conhecimento tradicional e participação.
Pescar melhor, não pescar mais: a virada necessária para valorizar alimento, território e biodiversidade
A conversa final aprofundou ainda mais esses pontos. Questionados sobre como lidar com tensões entre escala, pressão econômica, crescimento e limites ecológicos, os participantes defenderam que a “resposta não pode ser simplista”. Ivan lembrou que muitas pescarias operam com cotas e regras de alocação, o que desmonta a ideia de que todos competem simplesmente para extrair o máximo possível. Margot acrescentou que cada tipo de frota, arte de pesca e território tem vantagens e impactos próprios, e que substituir uma forma de produção por outra também desloca impactos para outros sistemas alimentares.
Henrique, por sua vez, sintetizou a questão em uma formulação especialmente potente: “pescadores artesanais não querem pescar mais, querem pescar melhor”. Para ele, a agenda prática deve passar pela valorização do pescado, redução de perdas ao longo das cadeias de valor, melhoria do aproveitamento dos alimentos aquáticos, fortalecimento de mercados sustentáveis e reconhecimento do esforço de quem leva comida saudável à mesa. Esse ponto desloca a discussão da quantidade para a qualidade, da extração para o cuidado, da produção invisibilizada para a valorização social, econômica e ambiental da pesca.
Para o Instituto Linha D’Água, essa é uma agenda profundamente conectada à sua atuação: fortalecer comunidades, valorizar sistemas alimentares sustentáveis, apoiar a pesca artesanal, incidir em políticas públicas e construir pontes entre os territórios e os espaços onde se decidem prioridades globais. É o movimento de ir “da Raiz ao Satélite”: partir das águas, das comunidades e dos saberes do território para influenciar os debates nacionais e internacionais sobre conservação, clima, biodiversidade e justiça socioambiental.
Assista na íntegra ao Webinar:





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