Enquanto houver manguezal, haverá vida: leia o manifesto dos povos do manguezal em português
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Documento aprovado durante a Assembleia da Redmanglar Internacional reúne povos de seis países em defesa dos maretórios, dos direitos territoriais, da justiça climática e das formas comunitárias de cuidado com a vida.

Em julho de 2026, delegadas e delegados de Brasil, Colômbia, Equador, Guatemala, México e Peru se reuniram no território do Gran Sinú, em Lorica, na Colômbia, para a Assembleia da Redmanglar Internacional. O encontro marcou o início de um novo ciclo de reorganização da rede, construído a partir do diálogo, da articulação entre organizações de base e da ação coletiva dos povos do manguezal, do mar, dos rios e das margens.
O Instituto Linha D’Água acompanhou esse processo por meio da participação de seu coordenador executivo, Henrique Kefalás. Também esteve presente Carlinhos, da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Extrativistas Costeiros e Marinhos - CONFREM, ao lado de lideranças comunitárias, pescadoras, coletoras, educadoras e representantes de diferentes territórios latino-americanos.
Durante a Assembleia, foi aprovado o Manifesto dos Povos do Manguezal, do Mar, dos Rios e das Margens, uma declaração política e coletiva em defesa dos maretórios, dos direitos territoriais, da soberania alimentar, da justiça climática e do protagonismo das comunidades.
O documento também denuncia as falsas soluções que transformam a natureza em mercadoria e reafirma que os povos não são apenas beneficiários da conservação: são seus criadores e guardiões.
O Instituto Linha D’Água manifesta seu apoio ao documento e apresenta, a seguir, sua tradução integral para o português. Ao reafirmar o 26 de julho como uma data nascida da mobilização dos povos, o manifesto recupera uma memória viva de resistência e renova o chamado à defesa dos manguezais, dos maretórios e das comunidades que os mantêm vivos. Para conhecer a origem e a relevância dessa mobilização, leia também nosso artigo especial sobre Dia Internacional de Defesa do Ecossistema de Manguezais.
Confira abaixo a íntegra do Manifesto em português:
Manifesto dos Povos do Manguezal, do Mar, dos Rios e das Margens
Julho de 2026 | Redmanglar Internacional
Desde o Rio Sinú, Purísima, Lorica, Colômbia
“Pelos manguezais, pelo mar, pelos rios, pelas margens, pelas encostas, por seus povos, pela água e pelo clima”
Do Pacífico, ao Atlântico e ao Grande Caribe
Somos povos que nascem da água e se dedicam ao seu cuidado.
Do manguezal, do mar, dos rios e dos recifes viemos, e neles continuamos existindo. Não falamos apenas a partir de um ecossistema: falamos a partir de um tecido vivo, no qual a vida humana, espiritual e natural é uma só.
Hoje, levantamos nossa voz em meio a uma profunda crise global: climática, ecológica, alimentar, econômica, social e civilizatória. Não são crises separadas. São a expressão de um modelo que rompeu a relação entre os povos e a natureza, mercantilizou a vida e transformou nossos territórios marinho-costeiros - nossos maretórios - em zonas de sacrifício.
Desde nossos manguezais, vemos com clareza aquilo que o poder global insiste em ignorar: não há justiça climática sem justiça territorial; não há transição sem transformação sistêmica; e não há futuro sem os povos.
Reconhecemo-nos como povos ancestrais do manguezal e do mar, povos anfíbios, herdeiros de uma memória viva que resiste, cria e sonha a partir das águas salgadas, salobras e doces. Coevoluímos com a maré, a lama e os ciclos da natureza e hoje continuamos de pé diante da exploração, da crise climática, das economias criminosas e das falsas soluções.
I. Os manguezais: ecossistemas de vida, cultura e clima
Os manguezais são um dos ecossistemas mais vitais do planeta.
Embora representem cerca de 1% das florestas do mundo, seu valor ecológico, cultural e espiritual é incalculável.
Sustentam a vida de milhões de pessoas, protegem as costas, alimentam os mares, purificam as águas e armazenam várias vezes mais carbono do que outras florestas tropicais.
Mas, para nós, são mais do que números: são a maternidade da vida, a escola do conhecimento ancestral e o coração de nossa existência coletiva.
Sem manguezal não há mar.
Sem mar, não há vida.
As mulheres são a coluna vertebral dos ecossistemas marinho-costeiros, ou maretórios.
Coletoras, pescadoras, transformadoras, comercializadoras e guardiãs do conhecimento. No entanto, seu trabalho continua invisibilizado e precarizado.
Exigimos dos governos e dos organismos internacionais:
O reconhecimento pleno da coleta artesanal como atividade essencial para a sustentabilidade costeira;
Políticas públicas com perspectiva de gênero, direitos trabalhistas e acesso real a recursos; e
A participação efetiva das mulheres em todos os espaços de decisão.
Dar visibilidade às mulheres do manguezal não é um gesto simbólico. É garantir a continuidade da vida.
III. Comunidades que restauram e defendem a vida
Há décadas, as comunidades da Redmanglar Internacional sustentam processos de restauração socioecológica, defesa territorial e construção de alternativas.
Os Sistemas Socioecológicos Biodiversos Familiares - ABIF, os sistemas comunitários de vida e as Reservas Extrativistas¹ são respostas reais diante da crise global: espaços de cuidado, biodiversidade, conhecimento e beleza.
Não somos beneficiários da conservação.
Somos seus criadores e guardiões. Exigimos o pleno reconhecimento dessas formas de gestão comunitária, assim como o pagamento da dívida ecológica, social e cultural histórica para com nossos povos.
IV. Contra as falsas soluções: respostas construídas pelos povos
Denunciamos as falsas soluções climáticas que mercantilizam a natureza, transformam o carbono em negócio e matam os povos. Não aceitamos modelos que falam em transição enquanto aprofundam o despojo.
Propomos:
Economias do Bem Viver e do Viver Saboroso;
Soberania alimentar e restauração socioecológica comunitária;
Redes de mulheres e jovens como lideranças da resiliência; e
Paz baseada na justiça, na autorregulação e na autodeterminação.
Nossas propostas não são teoria.
São práticas vivas, sustentadas ao longo do tempo por meio do conhecimento e da ação ética territorial.
V. Cocriação: o caminho político dos povos
Convocamos à cocriação como horizonte e prática:
Cocriar conhecimentos entre povos e saberes;
Cocriar políticas a partir dos ecossistemas marinho-costeiros, ou maretórios, e dos territórios - e não sobre eles; e
Cocriar alianças entre gerações, culturas e lutas.
Não falamos de participação simbólica.
Falamos de redistribuição real do poder.
A cocriação é nossa forma de construir o futuro.
VI. Solidariedade entre os povos do mundo
Em um mundo marcado pela guerra, pelo despojo e pela desigualdade, reafirmamos nossa vocação pela vida e pela paz.
Expressamos nossa solidariedade ativa aos povos que resistem à opressão em todas as suas formas. Estendemos nossa voz ao povo palestino e a todas as comunidades que enfrentam violência, ocupação e desapropriação.
A defesa da vida é uma só e não reconhece fronteiras.
VII. Chamado global
Convocamos os Estados, a comunidade internacional e os organismos multilaterais a reconhecerem os povos do manguezal como sujeitos políticos fundamentais na luta climática.
Exigimos:
Respeito à autodeterminação e aos direitos coletivos;
Garantia do consentimento livre, prévio e informado;
Proteção efetiva dos ecossistemas marinho-costeiros, ou maretórios, e dos territórios de vida; e
Reconhecimento da liderança das mulheres do manguezal.
VIII. Memória, reconhecimento e luta
Apoiamos o reconhecimento do dia 5 de novembro como Dia Internacional da Mulher Pescadora e Coletora Artesanal.
Reafirmamos o dia 26 de julho como Dia Internacional da Defesa do Ecossistema Manguezal, nascido da luta de nossos povos.
Essas datas não são símbolos vazios, são memória viva de resistência.
IX. Nosso chamado final
Dos manguezais do mundo, dizemos: Não somos o passado.
Não somos vulneráveis.
Não somos vítimas.
Somos passado, presente e futuro.
Somos povos que cuidam daquilo de que o mundo necessita para sobreviver.
Apelamos à comunidade internacional a deixar de falar em nosso nome e começar a caminhar conosco.
X. Estratégias de organização
A Redmanglar Internacional inicia um novo ciclo de reorganização, sustentado pelo diálogo permanente e pela ação coletiva dos povos do manguezal e do mar. Avançamos em direção à formação de comissões temáticas que trabalharão de maneira horizontal, autônoma e autogestionada, nascidas da Assembleia Geral como expressão máxima da palavra e da decisão coletiva.
Nossas redes permanecem abertas, dispostas a encontrar e a se articular com organizações irmãs que caminham sob os mesmos princípios de defesa da vida.
Compreendemos o território para além de sua dimensão geográfica: como um tecido vivo de práticas sociais, culturais, espirituais e econômicas que se entrelaçam nos manguezais. A partir desse olhar, afirmamos a reciprocidade e o equilíbrio socioecológico como fundamentos essenciais da existência.
Reafirmamos um modelo de vida próprio dos povos do mar e do manguezal, sustentado pelo cuidado com o humano e o natural, pela confiança no “nós”, pela permanência dos conhecimentos ancestrais e pelo diálogo respeitoso com os saberes científicos e acadêmicos.
As decisões nascem das organizações de base que dão vida e sentido à Redmanglar Internacional.
Este manifesto não se encerra: respira, transforma-se e cresce.
É palavra em movimento.
Desde a Redmanglar Internacional, convocamos à sua leitura, ao debate e à construção coletiva entre as delegadas e os delegados reunidos em Purísima, Lorica, com o olhar voltado à sua aprovação no Gran Sinú, território sagrado do povo Zenú.
Abrimos o manifesto à cocriação como ato de dignidade, resistência e esperança.
Porque, enquanto houver manguezal, haverá vida.
E, enquanto houver povos que o defendam, haverá futuro.
Com a presença e a palavra viva de delegadas e delegados da Colômbia, do Brasil, do Equador, da Guatemala, do México e do Peru, este processo se reafirma como um tecido latino-americano de luta, memória e futuro compartilhado.
Redmanglar Internacional
Em defesa dos ecossistemas marinho-costeiros, ou maretórios, e dos territórios de vida.
AÇÃO COLETIVA
RECIPROCIDADE
CONFIANÇA
¹ As Reservas Extrativistas são áreas naturais protegidas de uso sustentável existentes no Brasil, constituídas como maretórios sob a gestão de pescadores artesanais e destinadas à caça, à pesca e à coleta ancestral de bens e serviços dos territórios.
Tradução preparada pelo Instituto Linha D’Água a partir do documento original da Redmanglar Internacional.
Saiba mais
O manifesto original está disponível em espanhol no site da C-CONDEM. A organização também reúne informações sobre os processos comunitários de defesa dos manguezais no Equador e sobre o novo ciclo de articulação da Redmanglar Internacional.





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