7ª edição do Diálogos na Linha D’Água debate para quê, para quem e a que custo avançam as eólicas offshore no Brasil
Encontro reuniu especialistas em energia e representante da pesca artesanal para discutir planejamento elétrico, tarifas, pobreza energética, impactos territoriais e participação social, aprofundando questões levantadas pela Nota Técnica publicada pelo Instituto Linha D’Água.

A expansão das eólicas offshore no Brasil deve ser analisada para além do seu potencial tecnológico de geração de energia. Antes de avançar sobre uma nova fronteira no mar, é preciso discutir quanto dessa energia o país realmente necessita, para quais demandas, a que custo e com quais consequências para o sistema elétrico, os consumidores e os territórios costeiros e marinhos.
Essas questões orientaram a 7ª edição do Diálogos na Linha D’Água, realizada em 1º de setembro de 2026 pelo Instituto Linha D’Água, com participação de Clarice Ferraz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Flávia Mendes de Almeida Collaço, da Universidade de São Paulo (USP); e João Batista dos Santos, o Tita, pescador artesanal do Ceará e integrante da Arpolu (Articulação Povos de Luta do Ceará) e do MAR (Movimento de Atingidos/as pelas Renováveis). A mediação foi de Henrique Kefalás, coordenador executivo do Instituto.
A retomada do Diálogos na Linha D’Água, iniciativa criada em 2020 para aproximar conhecimento científico, políticas públicas, organizações da sociedade civil e os saberes de quem vive nos territórios costeiros e marinhos, ocorre em um momento em que as eólicas offshore ganham espaço nas agendas energética, econômica, climática e política do país. Na abertura, Henrique ressaltou que o avanço dessa discussão exige também ampliar o debate público. O ponto de partida foi a pergunta que dá nome ao encontro: “Eólicas Offshore: Para quê? Para quem?”
Da Nota Técnica ao debate público
O evento aprofundou as reflexões da Nota Técnica “Eólicas Offshore: Para quê? Para quem?”, publicada pelo Instituto Linha D’Água em julho e elaborada pelas professoras Clarice Ferraz e Flávia Collaço. O documento analisa a expansão dessa fonte considerando demanda e planejamento do sistema elétrico, custos, impactos sobre as tarifas, alternativas energéticas e consequências socioambientais e territoriais. A proposta, explicou Henrique, não é oferecer respostas fechadas, mas “colocar as perguntas importantes no centro desse processo de decisão”.
Clarice Ferraz chamou atenção para uma diferença fundamental entre o custo de geração da energia e o valor que efetivamente chega ao consumidor. Uma nova fonte pode apresentar determinado preço de geração, mas exigir investimentos adicionais em transmissão, distribuição, transformação e mecanismos de segurança do sistema, que também chegam à conta de luz. “Não basta a geração ser barata. O que interessa para nós, consumidores, é quanto chega a energia na nossa casa. Não interessa apenas a geração, interessa a nossa tarifa.” afirmou.
Diante do volume de geração eólica e solar já instalado em terra e dos desafios para absorver essa produção, Clarice questionou a abertura de uma nova fronteira mais complexa e cara no oceano: “não faz sentido do ponto de vista do setor elétrico, porque já existe um excesso na matriz de geração de fontes como a eólica e solar em terra”.
A professora defendeu que o planejamento energético seja orientado pelas necessidades do país, e não pela expansão da oferta como um objetivo em si mesmo. “Quando você leva uma eólica, no cavalo de Troia, você está levando junto uma termoelétrica e uma necessidade de transmissão ampliada. Você não consegue expandir só essa fonte: vai ter que adequar o sistema inteiro para recebê-la, e aí começa a ficar muito caro. Faça planejamento e geração de acordo com a necessidade. A gente está mexendo com a natureza, com a economia das pessoas e com o padrão de desenvolvimento do Brasil,” ressaltou.
Ao longo do debate, Clarice também destacou alternativas como eficiência energética, melhor aproveitamento da infraestrutura existente e planejamento integrado das diferentes fontes, buscando simultaneamente segurança do sistema, menor impacto territorial, descarbonização e tarifas acessíveis.
Produzir mais energia não significa garantir acesso
Flávia Collaço aprofundou a relação entre política energética, desenvolvimento e justiça social. Segundo a professora da USP, o Brasil possui uma matriz elétrica historicamente majoritariamente renovável e vem ampliando fortemente a geração solar e eólica, mas esse movimento convive com desperdício de energia, elevação de custos e dificuldades de acesso. “A gente tem produzido mais energia do que nunca, mas ela permanece inacessível para uma parcela significativa da população”, afirmou.
Nesse contexto, a expansão das renováveis não pode ser avaliada apenas pela quantidade de megawatts instalados, mas também por sua capacidade de melhorar as condições de vida e reduzir desigualdades. Flávia também questionou se o país está efetivamente substituindo combustíveis fósseis ou apenas adicionando novas fontes ao sistema. “A gente segue expandindo capacidade instalada, mas aumenta a complexidade do sistema. A gente produz mais energia, mas a gente desperdiça parte significativa dessa energia”, resumiu.
Para ela, o desafio é pensar uma transição que distribua benefícios, reduza impactos e responda a objetivos sociais, econômicos e climáticos concretos. A discussão chegou também às novas demandas de grande consumo energético, como data centers e produção de hidrogênio. Flávia questionou a lógica de ampliar a geração e depois buscar consumidores capazes de absorver essa oferta.
“Ao invés da gente partir das nossas necessidades sociais, econômicas do país, para daí definir a infraestrutura energética necessária, a gente passa a criar novas demandas para justificar a expansão da oferta”, afirmou. Para a pesquisadora, o planejamento deveria considerar também quanta energia é necessária para universalizar o acesso e ampliar saneamento, transporte público, saúde, industrialização regional e outras prioridades do desenvolvimento brasileiro.
No caso específico das eólicas offshore, a existência de um grande potencial técnico não torna sua exploração automaticamente necessária. “Ter potencial não significa que essa expansão seja automaticamente desejável ou adequada tanto ao sistema elétrico quanto à economia ou à sociedade brasileira”, destacou Flávia. É por isso que a Nota Técnica propõe olhar para essa fonte não como uma tecnologia isolada, mas como parte de uma política energética e de um determinado modelo de desenvolvimento.
Do sistema elétrico aos maretórios
João Batista dos Santos, o Tita, levou o debate diretamente para a experiência das comunidades pesqueiras do Ceará e do Nordeste, onde grandes empreendimentos eólicos e solares já provocam transformações territoriais. Ele relatou perda de acesso a áreas utilizadas tradicionalmente, alterações nos modos de vida, conflitos internos e ausência de participação efetiva das comunidades. “Os povos não são consultados, não são respeitados, não são vistos”, afirmou.
Para Tita, levar esse mesmo modelo de geração em grande escala para o oceano amplia as preocupações. Entre os riscos mencionados estão restrições à pesca e à navegação, interferências sobre ecossistemas marinhos e transformações nos territórios utilizados historicamente pelas comunidades. “A privatização do mar é algo impensável para os pescadores”, afirmou.
Sua fala também ampliou a própria noção de transição energética: “os nossos modos de vida precisam estar junto de qualquer debate a nível nacional, regional, pensando em transição energética, pensando em fortalecimento dos povos e dos territórios”. As perguntas enviadas pelo público aproximaram ainda mais essas dimensões. O debate passou por data centers, infraestrutura de transmissão, baterias, benefícios fiscais, pobreza energética, geração distribuída e alternativas para comunidades que ainda convivem com fornecimento precário de eletricidade.
Clarice e Flávia reforçaram que questionar a expansão das eólicas offshore não significa se posicionar contra as energias renováveis ou contra a ampliação do acesso à energia. A questão é discutir quais fontes e tecnologias devem ser priorizadas, em que escala, para responder a quais necessidades e com qual distribuição de custos, riscos e benefícios.
No encerramento, Henrique Kefalás chamou atenção para a velocidade com que decisões relacionadas às eólicas offshore e ao uso do espaço marítimo vêm avançando e para a necessidade de garantir participação efetiva nesse processo. “Não dá para tratar a pesca artesanal igual como o setor de óleo e gás. A gente tem que reconhecer quem tem direitos sobre esses espaços e quem constrói a vida a partir do uso desses territórios”, afirmou.
Henrique também destacou que a discussão sobre as eólicas offshore vem avançando em paralelo a outros processos de ordenamento do mar, como o Planejamento Espacial Marinho (PEM), sem que todas as vozes estejam sendo incorporadas de forma equivalente. Ao mencionar as regras em discussão para definição de áreas e o limite das 12 milhas náuticas, ressaltou que os efeitos dessas decisões ultrapassam as comunidades diretamente atingidas.
“Os impactos não vão ser só para o pescador, para a marisqueira. Vai ser para todo mundo, é para o conjunto da sociedade brasileira”, destacou.
Nesse sentido, reforçou que o papel do Instituto Linha D’Água é contribuir para ampliar esse debate e fazer a retaguarda das lutas já conduzidas pelas comunidades, para “garantir que ninguém fique para trás nesse processo”.
A 7ª edição do Diálogos terminou, assim, menos com uma resposta definitiva sobre as eólicas no mar e mais com um alerta sobre as decisões que o Brasil precisa tomar: antes de definir onde instalar novos empreendimentos, é necessário responder para quê essa energia será produzida, para quem, a que custo e com a participação de quem.
Assista na íntegra a 7ª edição do Diálogos na Linha D’Água:





Comentários