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7ª edição do Diálogos na Linha D’Água debate para quê, para quem e a que custo avançam as eólicas offshore no Brasil

comunicacao5558
3 de set.
6 min de leitura

Encontro reuniu especialistas em energia e representante da pesca artesanal para discutir planejamento elétrico, tarifas, pobreza energética, impactos territoriais e participação social, aprofundando questões levantadas pela Nota Técnica publicada pelo Instituto Linha D’Água.


A 7ª edição do Diálogos na Linha D’Água, realizada em 1º de setembro de 2026 pelo Instituto Linha D’Água, contou com participação de Clarice Ferraz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Flávia Mendes de Almeida Collaço, da Universidade de São Paulo (USP); e João Batista dos Santos, o Tita, pescador artesanal do Ceará e integrante da Arpolu (Articulação Povos de Luta do Ceará) e do MAR (Movimento de Atingidos/as pelas Renováveis). A mediação foi de Henrique Kefalás, coordenador executivo do Instituto.

A expansão das eólicas offshore no Brasil deve ser analisada para além do seu potencial tecnológico de geração de energia. Antes de avançar sobre uma nova fronteira no mar, é preciso discutir quanto dessa energia o país realmente necessita, para quais demandas, a que custo e com quais consequências para o sistema elétrico, os consumidores e os territórios costeiros e marinhos.


Essas questões orientaram a 7ª edição do Diálogos na Linha D’Água, realizada em 1º de setembro de 2026 pelo Instituto Linha D’Água, com participação de Clarice Ferraz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Flávia Mendes de Almeida Collaço, da Universidade de São Paulo (USP); e João Batista dos Santos, o Tita, pescador artesanal do Ceará e integrante da Arpolu (Articulação Povos de Luta do Ceará) e do MAR (Movimento de Atingidos/as pelas Renováveis). A mediação foi de Henrique Kefalás, coordenador executivo do Instituto.


A retomada do Diálogos na Linha D’Água, iniciativa criada em 2020 para aproximar conhecimento científico, políticas públicas, organizações da sociedade civil e os saberes de quem vive nos territórios costeiros e marinhos, ocorre em um momento em que as eólicas offshore ganham espaço nas agendas energética, econômica, climática e política do país. Na abertura, Henrique ressaltou que o avanço dessa discussão exige também ampliar o debate público. O ponto de partida foi a pergunta que dá nome ao encontro: “Eólicas Offshore: Para quê? Para quem?”


Da Nota Técnica ao debate público


O evento aprofundou as reflexões da Nota Técnica “Eólicas Offshore: Para quê? Para quem?”, publicada pelo Instituto Linha D’Água em julho e elaborada pelas professoras Clarice Ferraz e Flávia Collaço. O documento analisa a expansão dessa fonte considerando demanda e planejamento do sistema elétrico, custos, impactos sobre as tarifas, alternativas energéticas e consequências socioambientais e territoriais. A proposta, explicou Henrique, não é oferecer respostas fechadas, mas “colocar as perguntas importantes no centro desse processo de decisão”.


Clarice Ferraz chamou atenção para uma diferença fundamental entre o custo de geração da energia e o valor que efetivamente chega ao consumidor. Uma nova fonte pode apresentar determinado preço de geração, mas exigir investimentos adicionais em transmissão, distribuição, transformação e mecanismos de segurança do sistema, que também chegam à conta de luz. “Não basta a geração ser barata. O que interessa para nós, consumidores, é quanto chega a energia na nossa casa. Não interessa apenas a geração, interessa a nossa tarifa.” afirmou.


Diante do volume de geração eólica e solar já instalado em terra e dos desafios para absorver essa produção, Clarice questionou a abertura de uma nova fronteira mais complexa e cara no oceano: “não faz sentido do ponto de vista do setor elétrico, porque já existe um excesso na matriz de geração de fontes como a eólica e solar em terra”.


A professora defendeu que o planejamento energético seja orientado pelas necessidades do país, e não pela expansão da oferta como um objetivo em si mesmo. “Quando você leva uma eólica, no cavalo de Troia, você está levando junto uma termoelétrica e uma necessidade de transmissão ampliada. Você não consegue expandir só essa fonte: vai ter que adequar o sistema inteiro para recebê-la, e aí começa a ficar muito caro. Faça planejamento e geração de acordo com a necessidade. A gente está mexendo com a natureza, com a economia das pessoas e com o padrão de desenvolvimento do Brasil,” ressaltou.


Ao longo do debate, Clarice também destacou alternativas como eficiência energética, melhor aproveitamento da infraestrutura existente e planejamento integrado das diferentes fontes, buscando simultaneamente segurança do sistema, menor impacto territorial, descarbonização e tarifas acessíveis.


Produzir mais energia não significa garantir acesso

Flávia Collaço aprofundou a relação entre política energética, desenvolvimento e justiça social. Segundo a professora da USP, o Brasil possui uma matriz elétrica historicamente majoritariamente renovável e vem ampliando fortemente a geração solar e eólica, mas esse movimento convive com desperdício de energia, elevação de custos e dificuldades de acesso. “A gente tem produzido mais energia do que nunca, mas ela permanece inacessível para uma parcela significativa da população”, afirmou.


Nesse contexto, a expansão das renováveis não pode ser avaliada apenas pela quantidade de megawatts instalados, mas também por sua capacidade de melhorar as condições de vida e reduzir desigualdades. Flávia também questionou se o país está efetivamente substituindo combustíveis fósseis ou apenas adicionando novas fontes ao sistema. “A gente segue expandindo capacidade instalada, mas aumenta a complexidade do sistema. A gente produz mais energia, mas a gente desperdiça parte significativa dessa energia”, resumiu.


Para ela, o desafio é pensar uma transição que distribua benefícios, reduza impactos e responda a objetivos sociais, econômicos e climáticos concretos. A discussão chegou também às novas demandas de grande consumo energético, como data centers e produção de hidrogênio. Flávia questionou a lógica de ampliar a geração e depois buscar consumidores capazes de absorver essa oferta.


“Ao invés da gente partir das nossas necessidades sociais, econômicas do país, para daí definir a infraestrutura energética necessária, a gente passa a criar novas demandas para justificar a expansão da oferta”, afirmou. Para a pesquisadora, o planejamento deveria considerar também quanta energia é necessária para universalizar o acesso e ampliar saneamento, transporte público, saúde, industrialização regional e outras prioridades do desenvolvimento brasileiro.


No caso específico das eólicas offshore, a existência de um grande potencial técnico não torna sua exploração automaticamente necessária. “Ter potencial não significa que essa expansão seja automaticamente desejável ou adequada tanto ao sistema elétrico quanto à economia ou à sociedade brasileira”, destacou Flávia. É por isso que a Nota Técnica propõe olhar para essa fonte não como uma tecnologia isolada, mas como parte de uma política energética e de um determinado modelo de desenvolvimento.


Do sistema elétrico aos maretórios

João Batista dos Santos, o Tita, levou o debate diretamente para a experiência das comunidades pesqueiras do Ceará e do Nordeste, onde grandes empreendimentos eólicos e solares já provocam transformações territoriais. Ele relatou perda de acesso a áreas utilizadas tradicionalmente, alterações nos modos de vida, conflitos internos e ausência de participação efetiva das comunidades. “Os povos não são consultados, não são respeitados, não são vistos”, afirmou.


Para Tita, levar esse mesmo modelo de geração em grande escala para o oceano amplia as preocupações. Entre os riscos mencionados estão restrições à pesca e à navegação, interferências sobre ecossistemas marinhos e transformações nos territórios utilizados historicamente pelas comunidades. “A privatização do mar é algo impensável para os pescadores”, afirmou.


Sua fala também ampliou a própria noção de transição energética: “os nossos modos de vida precisam estar junto de qualquer debate a nível nacional, regional, pensando em transição energética, pensando em fortalecimento dos povos e dos territórios”. As perguntas enviadas pelo público aproximaram ainda mais essas dimensões. O debate passou por data centers, infraestrutura de transmissão, baterias, benefícios fiscais, pobreza energética, geração distribuída e alternativas para comunidades que ainda convivem com fornecimento precário de eletricidade.


Clarice e Flávia reforçaram que questionar a expansão das eólicas offshore não significa se posicionar contra as energias renováveis ou contra a ampliação do acesso à energia. A questão é discutir quais fontes e tecnologias devem ser priorizadas, em que escala, para responder a quais necessidades e com qual distribuição de custos, riscos e benefícios.


No encerramento, Henrique Kefalás chamou atenção para a velocidade com que decisões relacionadas às eólicas offshore e ao uso do espaço marítimo vêm avançando e para a necessidade de garantir participação efetiva nesse processo. “Não dá para tratar a pesca artesanal igual como o setor de óleo e gás. A gente tem que reconhecer quem tem direitos sobre esses espaços e quem constrói a vida a partir do uso desses territórios”, afirmou.


Henrique também destacou que a discussão sobre as eólicas offshore vem avançando em paralelo a outros processos de ordenamento do mar, como o Planejamento Espacial Marinho (PEM), sem que todas as vozes estejam sendo incorporadas de forma equivalente. Ao mencionar as regras em discussão para definição de áreas e o limite das 12 milhas náuticas, ressaltou que os efeitos dessas decisões ultrapassam as comunidades diretamente atingidas.

“Os impactos não vão ser só para o pescador, para a marisqueira. Vai ser para todo mundo, é para o conjunto da sociedade brasileira”, destacou.


Nesse sentido, reforçou que o papel do Instituto Linha D’Água é contribuir para ampliar esse debate e fazer a retaguarda das lutas já conduzidas pelas comunidades, para “garantir que ninguém fique para trás nesse processo”.


A 7ª edição do Diálogos terminou, assim, menos com uma resposta definitiva sobre as eólicas no mar e mais com um alerta sobre as decisões que o Brasil precisa tomar: antes de definir onde instalar novos empreendimentos, é necessário responder para quê essa energia será produzida, para quem, a que custo e com a participação de quem.


Assista na íntegra a 7ª edição do Diálogos na Linha D’Água:

 


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