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Mulheres que conectam maretórios: 20 anos da RESEX Canavieiras e novos caminhos de luta coletiva

  • comunicacao5558
  • há 5 horas
  • 9 min de leitura

Com apoio do Instituto Linha D’Água, mulheres da Cooperpesca Artesanal, da Articulação de Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso e do Quilombo e Resex do Mandira participaram, entre os dias 3 e 7 de junho, das celebrações pelos 20 anos da RESEX Canavieiras e pelos 17 anos da Rede de Mulheres Extrativistas da Bahia.


O Instituto Linha D’Água participou, entre os dias 3 e 7 de junho de 2026, da semana de celebrações pelos 20 anos da Reserva Extrativista de Canavieiras e pelos 17 anos da Rede de Mulheres Extrativistas da Bahia

O Instituto Linha D’Água participou, entre os dias 3 e 7 de junho de 2026, da semana de celebrações pelos 20 anos da Reserva Extrativista de Canavieiras e pelos 17 anos da Rede de Mulheres de Comunidades Extrativistas Pesqueiras da Bahia. Realizada no litoral sul baiano, a programação reuniu pescadoras e pescadores artesanais, marisqueiras, lideranças comunitárias, organizações de comunidades tradicionais, parceiros e representantes do poder público em atividades que combinaram memória, articulação, vivências territoriais e projeção de novos caminhos para as comunidades.


Para acompanhar a programação e ampliar as trocas entre iniciativas apoiadas, o Linha D’Água organizou uma comitiva inteiramente feminina, formada por duas integrantes da equipe do Instituto e por nove representantes de territórios costeiros e marinhos do Litoral Sul de São Paulo, que contam com longa trajetória de apoio e fortalecimento institucional por parte do LDA. 


Participaram da comitiva Vanda de Oliveira Felizardo e Roseli Aparecida Rocatelli da Silva, da Cooperpesca Artesanal, de Iguape-SP; Nathalia dos Santos Cunha, Joyce Mendonça Cardoso, Tatiana Mendonça Cardoso, Elisabeth Gomes Cordeiro (Dona Beth) e Rosiane Atanásio, da Articulação de Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso-SP; e Thaís Josiane Pereira e Catarina Martins de Oliveira, da Comunidade Quilombola e Reserva Extrativista do Mandira, de Cananéia-SP.


Já pela equipe do Linha D’Agua, Camila Costa Cavalari, Analista de Desenvolvimento Institucional, e Rosimar Pereira Barbosa, Assistente Administrativa, acompanharam o grupo ao longo de toda a programação, contribuindo para a organização da comitiva, a facilitação das trocas entre as participantes e o fortalecimento das conexões entre as lideranças e os territórios envolvidos.


A iniciativa foi construída conjuntamente com a Associação Mãe dos Extrativistas da RESEX de Canavieiras - AMEX, a Rede de Mulheres Extrativistas da Bahia e as organizações participantes. Mais do que viabilizar a presença na celebração, a proposta foi aproximar lideranças femininas e promover trocas sobre gestão comunitária, autonomia econômica, políticas públicas, organização produtiva e defesa territorial.


 

Mulheres no centro da celebração


No dia 3 de junho, o encontro pelos 17 anos da Rede de Mulheres Extrativistas da Bahia abriu oficialmente a programação. A atividade reuniu mais de 800 mulheres no povoado de Atalaia.

No dia 3 de junho, o encontro pelos 17 anos da Rede de Mulheres Extrativistas da Bahia abriu oficialmente a programação. A atividade reuniu mais de 800 mulheres no povoado de Atalaia. Pescadoras, marisqueiras, catadoras de caranguejo e extrativistas ocuparam o encontro com suas histórias, propostas e experiências. Mais do que celebrar a trajetória da Rede, a assembleia reafirmou o papel das mulheres na organização das comunidades, na produção de alimentos, na geração de renda e na defesa dos territórios costeiros e marinhos.


O encontro também permitiu que mulheres de diferentes regiões compartilhassem desafios relacionados ao reconhecimento de seu trabalho, à participação nos espaços de decisão, à comercialização da produção e à construção de maior independência financeira. As experiências apresentadas mostraram que a autonomia econômica não é apenas uma questão de renda: ela amplia a capacidade das mulheres de participar das decisões familiares, comunitárias e políticas e fortalece sua atuação na gestão e na defesa dos territórios. 

 

As comunidades comemoraram o recebimento do Selo da Pesca Artesanal, do Selo Nacional da Agricultura Familiar - SENAF e do Selo Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil - Identificação de Origem. Também foram celebrados o recebimento de casas e de freezers destinados às comunidades.

O primeiro dia foi marcado ainda pela celebração de conquistas concretas. As comunidades comemoraram o recebimento do Selo da Pesca Artesanal, do Selo Nacional da Agricultura Familiar - SENAF e do Selo Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil - Identificação de Origem. Também foram celebrados o recebimento de casas e de freezers destinados às comunidades.


As certificações valorizam a origem, os conhecimentos e os produtos da pesca artesanal e do extrativismo, além de ampliar possibilidades de acesso a mercados e políticas públicas. As casas representam dignidade e permanência no território, enquanto os freezers melhoram a conservação e a comercialização do pescado. São conquistas que mostram como anos de mobilização podem se transformar em infraestrutura, autonomia e melhores condições de vida.


Moradia, crédito, energia, equipamentos, certificações e fortalecimento das associações não surgiram como ações isoladas. Foram resultados de anos de mobilização, articulação e incidência política. Para Vanda de Oliveira Felizardo, da Cooperpesca Artesanal, um dos aspectos mais marcantes foi observar a relação entre as diferentes gerações da comunidade. 

“O momento mais marcante nesse encontro foi ver o amor e o cuidado da comunidade. Ver o carinho das pessoas mais velhas, que chegaram primeiro, com o pessoal mais novo. Esse cuidado e esse carinho que eles têm uns com os outros foram muito marcantes”, reforçou Vanda.


Sua fala evidencia que a continuidade de uma organização não depende apenas de estruturas, documentos ou cargos. Ela é construída na transmissão de conhecimentos, no cuidado entre as pessoas e na disposição de preparar novas lideranças para continuar uma caminhada iniciada por outras gerações.


 

Uma luta anterior ao decreto 

A Reserva Extrativista de Canavieiras foi criada oficialmente em 5 de junho de 2006, mas sua história começou muito antes da publicação do decreto. A criação da unidade reconheceu uma mobilização conduzida por pescadores, marisqueiras, catadoras de caranguejo, associações e lideranças que enfrentavam a perda de acesso aos manguezais e aos espaços onde suas famílias trabalhavam havia gerações.


As mulheres estavam no início desse movimento. Ao recordar a origem da Reserva, Ernesto Monteiro de Almeida, da comunidade de Barra Velha, contou como um grupo de catadoras de caranguejo passou a se organizar em torno do beneficiamento e da comercialização do produto.


“A ideia da criação da Reserva começou por conta do caranguejo. Juntou-se um grupo de mulheres, que começou a comprar caranguejo para filetar e vender, para ter uma renda. Quando veio a mortandade e a renda caiu, elas começaram a perguntar: ‘vamos fazer o quê? Vamos viver de quê?’”, lembrou Ernesto.


A pergunta expunha uma ameaça que ia além da redução da renda. As comunidades também começavam a encontrar cercas, proibições e intimidações nos lugares onde sempre pescaram. Maria do Caranguejo relembrou aquele período: “chegou um tempo em que a gente não podia mais pescar, porque começaram a comprar a beirada da praia e a proibir a gente de trabalhar nos mangues. Queriam ser donos até do manguezal”.


Para Maria, a criação da RESEX representou a conquista de um direito que estava sendo retirado das comunidades. “Quando fui convidada para uma reunião em Barra Velha, era para a criação de uma reserva. Eu estava doida para a gente ter um direito que não tinha. Depois da criação da RESEX, melhorou muito para nós, pescadores.” A relação de Maria com o território atravessa praticamente toda a sua vida. “Eu nasci na beirada do rio e vou para a beirada do rio. Vou fazer 72 anos e estou aqui. Com sete anos eu já era pescadora”, destacou.


Seu relato mostra que a RESEX não protege apenas uma área delimitada no mapa. Ela protege histórias, conhecimentos, formas de trabalho, alimentos, culturas e o direito de as comunidades decidirem sobre seu próprio futuro.

 

Três dias entre memória, território, fé e futuro


Na manhã do dia 4, a comitiva participou de uma vivência territorial nos manguezais da comunidade de Campinhos.

Na manhã do dia 4, a comitiva participou de uma vivência territorial nos manguezais da comunidade de Campinhos. Além dos conhecimentos sobre marés, rios e práticas extrativistas, as lideranças locais apresentaram experiências de acesso à moradia, energia e outras infraestruturas comunitárias.


Durante a caminhada e as conversas, as participantes puderam relacionar essas conquistas à mobilização das associações e ao acesso a políticas públicas. O território se tornou um espaço de aprendizagem sobre as conexões entre natureza, trabalho, cultura, organização social e permanência das famílias em suas comunidades.


Já na sede da AMEX, a comitiva conheceu a estrutura e as estratégias utilizadas para articular associações de base, formar lideranças, organizar pautas comuns e dialogar com o poder público. A visita mostrou como uma organização comunitária fortalecida pode transformar demandas locais em agendas coletivas de direitos, produção, infraestrutura e proteção territorial.


No dia 5, uma reunião com lideranças da CONFREM reforçou a importância das redes para a defesa dos territórios e para a ocupação dos espaços onde políticas, investimentos e decisões são definidos. Na sequência, a Roda de Conversa “20 anos depois”, realizada no Centro Sociocultural da RESEX, reuniu lideranças comunitárias, parceiros e servidores do ICMBio para recuperar a memória da criação da unidade, homenagear seus protagonistas e discutir os desafios atuais.


A atividade também apresentou às integrantes da comitiva estratégias utilizadas pelas comunidades ao longo das duas últimas décadas, como a realização de assembleias, a participação em conselhos, a construção de pautas comuns e o diálogo com órgãos públicos. “É o movimento social que faz as reservas extrativistas. É a luta do extrativista que faz as RESEX. É um modelo criado pela luta do povo”, afirmou Sérgio Freitas, Coordenador-Geral de Gestão Socioambiental (CGSAM) do ICMBio, ao destacar a importância da mobilização social na construção e na manutenção desses territórios.


À noite, a comunidade participou da Celebração Eucarística Campal, na Praça Santo Antônio, em Atalaia. Integrada à tradicional Festa de Santo Antônio, a cerimônia mostrou como fé, trabalho, cultura e pertencimento territorial se entrelaçam na vida comunitária. Ao projetar o futuro da Reserva, Lilian Santana destacou a importância de manter a mobilização viva para as próximas gerações: “que a RESEX Canavieiras complete mais 20, mais 30, mais 40, mais 50, mais 60 anos, e que essa luta que nós estamos construindo aqui seja para os nossos filhos, nossos netos e para as futuras gerações”.


A celebração marcou ainda a inauguração e a bênção do Centro Sociocultural da RESEX, localizado ao lado da capela. Aberto à população de Canavieiras, o espaço receberá reuniões, eventos, atividades educativas e passeios escolares, contribuindo para preservar a memória da luta e apoiar novas iniciativas comunitárias.

 

Uma formação viva entre maretórios 

Para as integrantes da comitiva, a programação mostrou como duas décadas de organização comunitária transformaram dificuldades em políticas públicas, infraestrutura e direitos. As experiências de Canavieiras não foram apresentadas como modelos prontos, mas como referências que cada território poderá adaptar à própria realidade.


Tatiana Mendonça Cardoso, da Articulação de Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso, definiu o intercâmbio como uma formação em movimento. “Esse tipo de ação é muito potente, porque integra as mulheres e nos dá a oportunidade de fazer uma formação viva. É uma formação em movimento: a gente pega as coisas que vocês fazem bem, leva para o nosso território e vai aplicando e transformando”, ressaltou.


Três principais aprendizados atravessaram as vivências:


1) A importância da autonomia econômica para ampliar a participação das mulheres nos espaços de decisão;


2) A capacidade da organização comunitária de transformar necessidades em pautas comuns e conquistas coletivas; e


3) O fortalecimento das redes, que permite compartilhar soluções, ampliar a incidência política e evitar que cada comunidade enfrente isoladamente seus desafios.


As trocas também provocaram reflexões sobre a renovação das lideranças. Para Carlos Alberto Pinto dos Santos, o Carlinhos da AMEX, o surgimento de novas vozes deve ser compreendido como sinal de fortalecimento da comunidade. “Quando a gente vê um companheiro da comunidade criticar o trabalho que a gente faz, nasceu ali uma liderança, porque teve coragem de apontar outro caminho. Talvez eu precise corrigir o meu, talvez eu precise dizer: ‘vamos juntos’. Todos nós aprendemos uns com os outros”, enfatizou.


 

Aprendizados que retornam aos territórios

As participantes retornaram de Canavieiras levando mais do que registros de uma celebração. Levaram exemplos concretos de como a organização comunitária pode abrir caminhos para o acesso a direitos, políticas públicas, infraestrutura e melhores condições de vida coletiva.

As participantes retornaram de Canavieiras levando mais do que registros de uma celebração. Levaram exemplos concretos de como a organização comunitária pode abrir caminhos para o acesso a direitos, políticas públicas, infraestrutura e melhores condições de vida coletiva.


Para as representantes da Ilha do Cardoso, os aprendizados poderão contribuir para fortalecer a articulação entre as mulheres, ampliar sua participação nos espaços comunitários e consolidar estratégias de incidência política e valorização dos modos de vida tradicionais. A experiência também ofereceu referências para pensar a autonomia econômica como parte inseparável do protagonismo das mulheres na gestão dos territórios.


Para a Cooperpesca, o encontro ampliou as trocas sobre organização produtiva, participação feminina, comercialização e construção de redes. Ao mesmo tempo, a experiência acumulada pela cooperativa de Iguape poderá contribuir para as discussões sobre o fortalecimento da Cooperativa de Pesca da RESEX Canavieiras.


Para as representantes do Mandira, o intercâmbio permitiu conectar experiências de territórios tradicionais que articulam conservação, produção comunitária, identidade cultural e geração de renda. As aproximações podem abrir novos espaços para o compartilhamento de estratégias construídas por comunidades quilombolas e extrativistas.


Em comum, as participantes levaram a compreensão de que autonomia econômica, fortalecimento das associações e incidência política não são agendas separadas. Elas se alimentam mutuamente. Mais autonomia fortalece a participação das mulheres, organizações mais fortes conquistam políticas e infraestrutura, e redes articuladas ampliam a defesa dos territórios.

 

Da raiz ao satélite 

Para o Instituto Linha D’Água, apoiar estruturalmente os territórios é criar condições para que lideranças circulem, conheçam novas experiências, ampliem repertórios e construam soluções coletivas. Essa forma de atuação traduz o conceito “Da raiz ao satélite”: partir dos saberes tradicionais e científicos, das capacidades locais e das relações construídas nas comunidades para fortalecer organizações, ampliar redes e levar demandas e soluções dos territórios a novos espaços de decisão.


Encontros como esse não terminam na despedida. Cada experiência compartilhada deixa uma semente, cada debate fortalece uma raiz e cada voz que circula abre uma nova possibilidade de futuro.


Canavieiras celebrou 20 anos de uma Reserva construída pela luta das comunidades e 17 anos de uma Rede que colocou as mulheres no centro da transformação. Ao abrir seu território para novas trocas, mostrou que uma conquista não pertence apenas ao passado: ela pode viajar, inspirar e ajudar outros maretórios a construir seus próprios caminhos.




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