Do encontro em São Paulo à vivência no território: Brasil e Japão conectados pela sociobiodiversidade do Vale do Ribeira
Encontro com empresas japonesas em julho e expedição realizada em agosto aproximaram comunidades tradicionais, ICMBio, Embaixada do Japão, setor privado e Instituto Linha D’Água em torno de experiências que conectam conservação, cultura, pesca artesanal e economias da sociobiodiversidade.

A construção dessa aproximação entre Brasil e Japão ganhou um primeiro capítulo em 21 de julho de 2026, quando o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com a Embaixada do Japão no Brasil, promoveu um encontro com empresas japonesas para apresentar oportunidades de cooperação voltadas à conservação da biodiversidade e ao fortalecimento da sociobioeconomia em Unidades de Conservação federais.
Com apoio do Fundo Vale, no âmbito do Sustenta.Bio, o encontro reuniu representantes do setor privado, lideranças comunitárias e instituições parceiras em torno do Programa ECOSociobio e da iniciativa Wa no Mori – Economia e Biodiversidade. Na abertura, participaram o presidente do ICMBio, Mauro Pires; o ministro Tomoaki Ishigaki, chefe da Missão Adjunta da Embaixada do Japão no Brasil; e Carlos Roza, presidente da Japan House São Paulo.
Foi também nesse encontro que foi exibido o primeiro vídeo produzido a partir da parceria entre ICMBio, Embaixada do Japão e Instituto Linha D’Água, apresentando o Vale do Ribeira, a Reserva Extrativista do Mandira e a Área de Proteção Ambiental Cananéia-Iguape-Peruíbe. O filme aproximou o público dos manguezais, da pesca artesanal, dos viveiros de ostras, dos conhecimentos tradicionais e das memórias de quem construiu sua vida naquele território.
Entre os depoimentos está o de Máximo Takahira, nascido em Iguape em 1932 e ligado à pesca desde a infância. “Eu conheço a pesca desde 1939”, conta. Ao recordar a presença japonesa e sua atuação na Cooperpesca Artesanal, Takahira ajuda a revelar uma conexão entre Japão e Vale do Ribeira que antecede em muitas décadas as novas agendas de cooperação.

O encontro de julho permitiu que essas histórias do território dialogassem com possibilidades concretas de colaboração. A coordenadora-geral de Articulação de Políticas Públicas e Economias da Sociobiodiversidade do ICMBio, Tatiana Rehder, apresentou os objetivos do ECOSociobio, enquanto Márcia Soares, da Gerência de Amazônia e Parcerias do Fundo Vale, compartilhou experiências do Sustenta.Bio.
A dimensão comunitária ganhou voz também com Manoel Cunha, liderança da Reserva Extrativista do Médio Juruá, no Amazonas. “Nós, povos e comunidades tradicionais, estamos na floresta cumprindo um papel muito importante para o Brasil e para o mundo: conservar a biodiversidade e os ecossistemas, ao mesmo tempo em que garantimos nosso sustento de forma sustentável, a partir dos conhecimentos transmitidos pelos nossos antepassados”, afirmou.
A culinária completou essa aproximação: um menu preparado pela chef Telma Shimizu reuniu técnicas japonesas e produtos da sociobiodiversidade brasileira, mostrando também pela alimentação como biodiversidade, cultura e geração de valor podem caminhar juntas.
No território, conservação e qualidade de vida caminham juntas

A proposta de sair da apresentação institucional e conhecer essas experiências diretamente nos territórios se concretizou poucas semanas depois. Nos dias 6 e 7 de agosto, a Expedição à APA Cananéia-Iguape-Peruíbe e à Resex Mandira reuniu comunidades tradicionais, ICMBio, Embaixada do Japão, Instituto Linha D’Água e representantes de empresas japonesas em uma imersão pelo litoral sul de São Paulo.
A programação passou pela Resex e Quilombo Mandira e seus viveiros de ostras, pela Ilha do Cardoso, pelo Núcleo Perequê e por experiências ligadas ao cerco fixo, às artes da pesca e à produção artesanal do iriko, além de rodas de conversa com comunidades e organizações locais. A própria proposta da expedição era ampliar o conhecimento sobre negócios comunitários associados à sociobiodiversidade e apoiados pelo ECOSociobio.
Na Resex do Mandira, a experiência da ostra mostrou de maneira concreta como uma atividade econômica pode depender da conservação do próprio ecossistema. Chico Mandira, quilombola e ostreicultor, recorda um tempo em que retirar grandes quantidades diretamente do manguezal era a principal forma de sobrevivência: “desde 1978, eu vivo da ostra. Então, eu criei todos os meus filhos com ostra”.
A construção dos viveiros e o manejo comunitário alteraram essa relação. Hoje, explica Nei Mandira, liderança quilombola, existem “mais de 100 viveiros desses, divididos em várias famílias”; as ostras crescem, se alimentam e se reproduzem nos cultivos, contribuindo também para a renovação do manguezal. Chico resume o resultado: “Além de preservar os manguezais, respeitar o meio ambiente, a gente conseguiu melhorar a qualidade de vida da comunidade”.
A ideia de gerar mais valor utilizando melhor — e não necessariamente mais — os recursos também aparece na fala de Tatiana Mendonça Cardoso, caiçara da Ilha do Cardoso. “A gente depende completamente da natureza pra viver e sabemos que, quanto mais se esgotam os recursos naturais, mais longe a gente tem que ir, mais a gente tem que pescar”, explica. Por isso, afirma, o objetivo é “valorizar cada vez mais o produto para que a gente tire menos e consiga valorizar mais esse trabalho que a gente faz”.
É justamente nessa articulação que o ECOSociobio busca atuar. Segundo Tatiana Rehder, o programa chegou para “tecer essa rede de apoio aos povos e comunidades tradicionais dentro das unidades de conservação” e unir parceiros públicos e privados para valorizar a riqueza da sociobiodiversidade presente nesses territórios.
Na cadeia da pesca, a expedição também evidenciou trabalhos que muitas vezes permanecem menos visíveis. Vanda de Oliveira Felizardo, secretária-executiva da Cooperpesca Artesanal, destaca o protagonismo feminino na produção: “Hoje aqui na Cooperpesca, 70% do trabalho é feito pelas mulheres. As mulheres estão em todo o ciclo da pesca, em toda essa cadeia da pesca”.
A experiência com o iriko mostra ainda como organização, processamento e comercialização podem transformar o valor do pescado. “Vendo todo esse processo, toda essa cadeia, a gente conseguiu colocar o valor que era justo por todos os trabalhos”, explica Vanda.
Esse princípio encontra correspondência direta nas Diretrizes Voluntárias da FAO para a Pesca de Pequena Escala, que reconhecem o papel das mulheres ao longo da cadeia produtiva, recomendam sua participação equitativa e defendem estratégias de agregação de valor compatíveis com a sustentabilidade dos recursos.
Saberes e sabores abrem caminhos para a cooperação Brasil–Japão

O iriko tornou-se também um dos símbolos mais expressivos da conexão entre o Vale do Ribeira e o Japão. A produção artesanal foi introduzida na região por imigrantes japoneses e permanece presente tanto no território quanto na gastronomia.
Para Telma Shimizu, chef do restaurante Aizomê e Embaixadora da Culinária Japonesa, visitar a produção deu outra dimensão a um ingrediente que já utilizava: “Eu sempre usei iriko no meu restaurante como base do meu dashi, o caldo que permeia todas as nossas receitas. É o sabor desse dashi nipo-brasileiro”. E acrescenta: “muito mais do que ingrediente, o que vai no prato e dá um valor maior ainda são, com certeza, as histórias e as pessoas que fazem parte dessa história”.
A perspectiva é compartilhada por Simone Soares, da Korin: “Quando você traz a história, como essa vivência que nós tivemos aqui esses dias, e consegue passar isso para o consumidor, isso faz toda a diferença”.
A presença das empresas japonesas durante a expedição buscou justamente ampliar esse diálogo entre território, conhecimento e novas possibilidades de cooperação. Tomoki Mitsuya, da Embaixada do Japão, destaca que o potencial dessa aproximação não se restringe ao financiamento: “Convidamos empresas japonesas a participar. Empresas, é claro, têm possibilidade de apoiar com financiamento, mas ao mesmo tempo elas têm tecnologias e conhecimento. Acho que isso é muito importante para essas comunidades”.
Para Eliel de Souza, chefe do NGI Iguape do ICMBio, a própria existência da Resex do Mandira ajuda a mostrar por que as comunidades precisam estar no centro: sua criação nasceu “pela mobilização da comunidade do Mandira para o uso do seu território remanescente de quilombo e do manguezal”. É uma experiência que converge com as Diretrizes da FAO ao reconhecer direitos territoriais, participação comunitária e conhecimentos locais como elementos essenciais à sustentabilidade da pesca de pequena escala.
Para o Instituto Linha D’Água, o percurso iniciado no encontro de julho e aprofundado pela expedição demonstra o potencial de alianças que partem das experiências já construídas pelas comunidades. “Um aspecto-chave no fortalecimento das economias da sociobiodiversidade é essa conjunção de esforços, essa rede de colaboração composta pelas próprias comunidades e suas formas organizativas, os órgãos públicos gestores desses territórios protegidos, as empresas [...] e a filantropia, que é o caso do Instituto Linha D’Água”, destaca Henrique Kefalás, coordenador-executivo do Instituto.
Ao final dos dois encontros, a relação Brasil–Japão aparece não apenas como memória histórica, mas como possibilidade de construir novos caminhos para os territórios. Telma Shimizu encontra uma síntese dessa conexão nos conceitos japoneses de Satoyama e Satoumi: “É o mesmo princípio, onde o homem encontra o mar e tem essa harmonia. Você tem essa convivência, e o homem cuida da natureza porque sabe: se eu cuidar, o mar, a natureza, também vai me prover”.
No Vale do Ribeira, essa ideia encontra paralelos em práticas que caiçaras, quilombolas, pescadores e pescadoras artesanais vêm construindo há gerações. Os dois vídeos produzidos a partir dessa parceria registram justamente essas duas dimensões: o primeiro mergulha na memória, nos saberes e nos modos de vida do território; o segundo acompanha os encontros da expedição e as novas pontes que podem ser construídas entre comunidades, Brasil e Japão.





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