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Oceano é território, cultura, alimento e vida: Linha D’Água participa de debate sobre filantropia e clima

  • comunicacao5558
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Em painel sobre o papel da filantropia no nexo Oceano-Clima, Felipe Leal, Diretor Fundador do Instituto Linha D’Água, defendeu uma economia azul com justiça social, protagonismo comunitário e reconhecimento da pesca artesanal como sistema alimentar essencial para o Brasil e para o mundo.


Organizado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio de Capital for Climate, Converge Capital e Nature Investment Lab (NIL), o encontro reuniu cientistas, formuladores de políticas públicas, representantes da sociedade civil, filantropias, setor financeiro, setor privado e organizações internacionais para debater caminhos de investimento, mitigação, adaptação e resiliência na interação entre oceano e clima.

No dia 19 de maio de 2026, o Instituto Linha D’Água participou do evento “Nexo Oceano-Clima: oportunidades de investimentos e ações”, realizado no SP Hall, em São Paulo, como parte da programação da Brazil Climate Investment Week 2026. Organizado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio de Capital for Climate, Converge Capital e Nature Investment Lab (NIL), o encontro reuniu cientistas, formuladores de políticas públicas, representantes da sociedade civil, filantropias, setor financeiro, setor privado e organizações internacionais para debater caminhos de investimento, mitigação, adaptação e resiliência na interação entre oceano e clima.


O último painel do evento, intitulado “Papel da filantropia no nexo Oceano-Clima”, contou com a participação de Felipe Leal, Diretor Fundador do Instituto Linha D’Água; Louis Lambrechts, representante da Oceano Azul Foundation; e Omar Duarte Rodrigues, Gerente Sênior de Engajamento, Comunicação e Relações Institucionais da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. A mediação foi conduzida por Maria Netto, Diretora Executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS).


Ao abrir sua participação, Felipe apresentou a atuação do Linha D’Água a partir de uma perspectiva de direitos humanos e justiça socioambiental. “Há 12 anos eu fundei o Instituto Linha D’Água, uma organização brasileira que trabalha na defesa da sociobiodiversidade costeira e marinha, apoiando comunidades tradicionais que vivem e trabalham nesses territórios, especialmente pescadores e pescadoras artesanais, comunidades caiçaras, quilombolas, indígenas e outros povos do mar”, afirmou. Para ele, uma das principais contribuições do Instituto para o debate é “reforçar a centralidade dos povos costeiros e das águas na agenda do clima e oceano”.


Felipe destacou que, embora o Brasil tenha avançado no reconhecimento da importância dos povos da floresta para a conservação e o enfrentamento da crise climática, ainda fala pouco sobre os povos do mar. “Durante muito tempo, o Brasil avançou no reconhecimento dos povos da floresta para a conservação e para o enfrentamento da crise climática, mas ainda falamos muito pouco sobre os povos do mar”, pontuou.


São comunidades que sustentam territórios fundamentais para a resiliência climática, para a conservação dos ecossistemas costeiros e para a segurança alimentar. “Essa não é uma agenda marginal”, reforçou Felipe, lembrando que mais de 3 bilhões de pessoas dependem dos alimentos aquáticos como parte importante de sua alimentação e que cerca de 15% da proteína animal consumida no mundo vem desses sistemas.


Essa dimensão alimentar é central para compreender o papel da pesca artesanal no debate climático. Ao falar de oceano, clima e investimentos, não se trata apenas de discutir carbono, infraestrutura, energia ou “economia azul”, mas também de reconhecer sistemas alimentares que garantem nutrição, renda, cultura e permanência territorial para milhões de pessoas.

A pesca artesanal, muitas vezes invisibilizada nas grandes agendas de financiamento, é um dos sistemas alimentares mais relevantes e resilientes do planeta. No Brasil, Felipe lembrou que há mais de 1 milhão de pessoas vinculadas à pesca artesanal, muitas delas expostas simultaneamente à insegurança social, territorial e climática.


Em sua fala, Felipe também chamou atenção para o fato de que a crise climática já não é uma ameaça distante para as comunidades costeiras brasileiras. “A gente fala sobre carbono, infraestrutura, energia, economia azul, enquanto a crise climática já se materializa no cotidiano das zonas costeiras brasileiras: erosão costeira, avanço do mar, salinização das águas, eventos extremos, insegurança alimentar”, afirmou.


Segundo ele, esses impactos são sentidos “antes de tudo, pelas comunidades costeiras que estão na linha de frente”. Por isso, transformar investimentos em implementação real exige mais do que bons projetos: exige presença nos territórios, escuta qualificada, adaptação às realidades locais e construção de confiança.


Assista aqui ao painel na íntegra:




Filantropia de retaguarda


Para o Instituto Linha D’Água, adaptação climática e conservação só ganham consistência quando as comunidades deixam de ser tratadas como público-alvo passivo. “Na nossa experiência, adaptação climática e conservação só ganham consistência quando as comunidades deixam de ser vistas apenas como beneficiárias e passam a ser vistas como protagonistas e coautoras das soluções”, disse Felipe.


Isso demanda tempo, continuidade e investimento em uma dimensão frequentemente negligenciada: a governança comunitária. “Existe uma tendência de financiar muito mais o projeto do que o tecido social necessário para que ele se sustente no longo prazo”, completou.

Foi nesse contexto que Felipe apresentou a ideia de uma “filantropia de retaguarda”, conceito que traduz a forma como o Linha D’Água compreende seu papel junto aos territórios.Segundo ele, trata-se de uma atuação “menos orientada ao protagonismo institucional e mais comprometida em fortalecer organizações, lideranças e comunidades que já conservam esses territórios no dia a dia”.


Essa filantropia também deve atuar como ponte, conectando territórios costeiros, espaços de decisão, ciência, filantropia e agendas globais de clima e oceano. “Ainda existe uma distância muito grande entre o lugar onde esses impactos são sentidos e os espaços de decisão sobre os financiamentos”, afirmou.


A fala também trouxe um alerta importante: a economia azul precisa ser construída com justiça social para não repetir desigualdades históricas. “Existe o risco de repetirmos nos oceanos a mesma lógica de concentração territorial e exclusão social que marcou tantos ciclos de desenvolvimento no Brasil, agora com uma ‘roupagem azul’”, afirmou Felipe.


Para ele, isso acontece quando comunidades tradicionais ficam fora dos processos decisórios, quando projetos costeiros ignoram impactos territoriais ou quando a pesca artesanal permanece invisibilizada. “Discutir economia azul sem discutir justiça social é correr o risco de aprofundar desigualdades históricas nos territórios costeiros”, resumiu.


Ao comentar a fala de Felipe, a mediadora Maria Netto destacou a importância de recolocar as pessoas no centro da conversa sobre oceano e clima. Para a Diretora Executiva do iCS, o painel ajudou a recuperar uma dimensão essencial do debate: “A gente falou muito dos oceanos, da importância da conservação dos oceanos, mas é importante lembrar que a gente está falando de pessoas”.


Maria também ressaltou a dimensão cultural e territorial trazida pelo Linha D’Água, lembrando que muitos povos vivem em torno desses territórios e que a filantropia pode apoiar comunidades para que elas tenham condições de implementar soluções, e não apenas receber ações assistencialistas.



O último painel do evento, intitulado “Papel da filantropia no nexo Oceano-Clima”, contou com a participação de Felipe Leal, Diretor Fundador do Instituto Linha D’Água; Louis Lambrechts, representante da Oceano Azul Foundation; e Omar Duarte Rodrigues, Gerente Sênior de Engajamento, Comunicação e Relações Institucionais da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

A contribuição de Omar Duarte Rodrigues, da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, ampliou o debate para a comunicação, o engajamento social e a transformação da percepção pública sobre o oceano. Segundo ele, a sociedade brasileira ainda associa meio ambiente muito mais ao “verde” do que ao “azul”.


Omar lembrou que o oceano é o principal regulador climático do planeta e que há uma lacuna entre conhecimento, vontade e ação. Também destacou que o papel da filantropia passa por colocar o oceano no cotidiano da sociedade, não apenas na agenda ambiental, mas também nas agendas de bem-estar, política, economia, esportes, artes e educação.


Já Louis Lambrechts, da Oceano Azul Foundation, trouxe uma perspectiva internacional sobre o papel da filantropia. Em sua avaliação, recursos filantrópicos são fundamentais, mas insuficientes para transformar a agenda oceânica em escala. “Nós percebemos muito cedo que não podemos salvar o oceano só com fundos filantrópicos. Precisamos olhar para a economia”, afirmou.


Louis defendeu que a filantropia pode ajudar a reduzir riscos, apoiar inovação, criar pontes com empresas e abrir espaço para discussões políticas e diplomáticas. Ele citou experiências da fundação com aceleração de tecnologias azuis, conexão entre startups e empresas, e iniciativas internacionais de diálogo sobre oceano, clima e governança.


Em sua fala, Louis também defendeu uma mudança de paradigma sobre a forma como a sociedade enxerga o oceano. Para ele, ainda há uma tendência de tratar o oceano como espaço vazio ou ativo isolado, e não como sistema vivo e essencial para a economia, o clima e a vida. “O problema é que ainda vemos os oceanos como um estado, e não como um sistema”, afirmou.


“Sem um sistema de oceano que funcione, nunca vamos conseguir chegar a uma economia real”. A mensagem dialogou diretamente com a provocação central do evento: como transformar a conservação e a resiliência oceânica em uma agenda econômica, política e social capaz de orientar investimentos de longo prazo.

 

Uma agenda que vai além do painel

Ao longo do dia, o evento “Nexo Oceano-Clima: oportunidades de investimentos e ações” abordou diferentes dimensões da relação entre oceano, clima e desenvolvimento. Entre os temas debatidos estiveram o oceano como pilar da agenda climática, os caminhos para a Conferência da Década do Oceano, diplomacia e governança, oportunidades em economia e finanças azuis, impactos climáticos em cidades e infraestruturas costeiras, sistemas alimentares sob pressão climática, descarbonização do transporte marítimo e geração de energia renovável no mar.


Esses debates reforçaram que o oceano não pode ser tratado apenas como paisagem, fronteira econômica ou espaço de conservação isolado. Ele está diretamente conectado à segurança alimentar, à adaptação climática, à infraestrutura, à matriz energética, ao transporte, à proteção das cidades costeiras, à biodiversidade, à economia real e à permanência digna de comunidades em seus territórios. Nesse sentido, a agenda oceano-clima exige uma abordagem integrada, capaz de reunir ciência, políticas públicas, financiamento, saberes tradicionais e participação social.


Para o Instituto Linha D’Água, essa integração só será efetiva se os povos do mar estiverem no centro das decisões. Como sintetizou Felipe Leal, “muitas vezes falamos sobre o oceano como uma fronteira econômica ou climática, mas, para milhões de pessoas no Brasil, o oceano é, antes de tudo, território, cultura, alimento, identidade e vida”.


A grande pergunta, portanto, não é apenas quanto recurso será mobilizado para o oceano nos próximos anos, mas quais futuros serão construídos a partir desses investimentos, e ao lado de quem eles serão construídos.

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