• Instituto Linha D'Água

Comunidades tradicionais unidas para garantir a segurança alimentar na pandemia

Alimento de qualidade para quem mais precisa


Em 2020, comunidades tradicionais e organizações não governamentais se uniram em uma coalizão de caráter emergencial para combater os efeitos da pandemia de covid-19 e de seu isolamento social, situação que se alongou e ainda permanece em 2021.


A ação consistiu em levar os alimentos produzidos por comunidades quilombolas e caiçaras do Vale do Ribeira, que deixaram de ser vendidos, até as famílias que perderam seu poder de compra durante a pandemia.


Este foi o tema da 5a edição do Diálogos na Linha D’Água, que contou com a mediação do coordenador executivo do Instituto Linha D’Água, Henrique Kefalás, e a participação das pessoas envolvidas nessa coalizão que ajudou a aliviar os impactos da pandemia na vida de pescadores e pescadoras, agricultores e agricultoras, moradores das comunidades tradicionais e dos municípios da região do Vale do Ribeira da Grande São Paulo.


Saiba mais sobre as nossas convidadas

Tatiana Cardoso é caiçara, cientista social e educadora popular, atuando em projetos e estudos sobre tradição, fortalecimento feminino e conservação ambiental. Moradora da comunidade da Enseada da Baleia, na Ilha do Cardoso, Cananéia-SP, é integrante do grupo das Mulheres da Enseada da Baleia (MAE), da Associação de Moradores da Enseada da Baleia (AMEB), da Articulação de Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso e do Fórum de Povos e Comunidades Tradicionais do Vale do Ribeira.


Rosana de Almeida faz parte do Quilombo Nhunguara, é produtora rural e coordenadora financeira da Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale).


Fabiana Fagundes da Silva é agrônoma, mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural, e Assessora Técnica do Instituto Socioambiental (ISA).


A força das comunidades tradicionais no enfrentamento da pandemia

A chegada da pandemia de covid-19 obrigou as comunidades quilombolas e caiçaras do Vale do Ribeira a reorganizar suas vidas e adaptar aos novos hábitos para garantir a saúde e a segurança de todos os seus moradores.


Isso fez com que algumas comunidades se fechassem completamente para evitar a chegada de pessoas de fora, impactando diretamente o turismo de base comunitária, a comercialização de alimentos e a compra de produtos que as comunidades não produzem.


Em algumas dessas comunidades, os mercados institucionalizados de vendas de alimentos para a merenda escolar ficaram paralisados, impactando, portanto, no escoamento da produção.


Dentro desse contexto, foi necessário traçar novas estratégias de sobrevivência para todas as pessoas. Uma dessas estratégias foi o mapeamento das comunidades em situação mais vulnerável na região e a busca por recursos que pudessem arcar com os custos de produção, visando encontrar soluções para garantir a segurança alimentar e a geração de renda.


Como superar um momento tão difícil para todos


Para solucionar esses problemas, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) traçaram um plano emergencial para resolver as questões tanto da produção, quanto da venda e da distribuição dos alimentos cultivados pelas comunidades da região. No litoral, o Instituto Linha D’Água somou ao movimento reforçando a parceria com a comunidade caiçara da Enseada da Baleia, que forneceu o peixe pescado e beneficiado.


Dessa forma, nasceu a ação que viabilizou a compra dos alimentos produzidos por comunidades quilombolas e caiçaras com o objetivo de serem doados às comunidades em situação vulnerável, o que contribuiu para o escoamento da produção, geração de renda para pescadores e pescadoras, agricultores e agricultoras e segurança alimentar para moradores em vulnerabilidade de diferentes regiões do estado de São Paulo.


Além disso, para que a operação fosse segura para todos, foi também fundamental evitar a disseminação do vírus ao longo de todo este processo. A solução encontrada foi trabalhar em duas frentes com as comunidades: prevenção, com a distribuição de kits de proteção, e sensibilização, com informações e orientações para os cuidados necessários.


A união dos saberes das comunidades tradicionais


Partindo da diversidade do Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas, foram identificados os alimentos produzidos por elas que entrariam no projeto, visando reorganizar a produção para atender à nova demanda.


Da mesma forma, a comunidade caiçara, a partir de seus conhecimentos tradicionais de pesca e secagem do peixe, se organizou para definir a melhor maneira de comprar o peixe de pescadores artesanais da comunidade e do entorno, e beneficiar o pescado de forma segura, atrativa, de fácil transporte e apto para o consumo.


Quando o alimento chega aonde tem que chegar


Esta coalizão emergencial possibilitou que os alimentos produzidos por estas comunidades tradicionais do litoral e do interior, pudessem ser comprados por valores justos e doados para outras comunidades, em locais de alta vulnerabilidade e igualmente impactados com a perda de renda devido à pandemia. A ação como um todo impactou indígenas, caiçaras, quilombolas e moradores urbanos de municípios do Vale do Ribeira e da Grande São Paulo.


Em um ano e quatro meses do plano emergencial, foram doadas, até o momento, cerca de 254 toneladas de alimentos agroecológicos, compreendendo 42 variedades de frutas e hortaliças produzidas por 12 comunidades quilombolas ligadas à Cooperquivale, beneficiando mais de 30 mil famílias.


Além disso, quase 13 mil quilos de peixes frescos foram adquiridos de cerca de 78 pescadores artesanais e beneficiados por 21 pessoas, resultando em 6 mil quilos de peixe seco que também fizeram parte das cestas doadas.


O futuro é ecológico e solidário


O projeto emergencial começou como uma resposta à pandemia de covid-19, porém se tornou uma amostra de como a produção de alimentos saudáveis e sustentáveis pode atingir consumidores de forma mais justa e fortalecer as relações entre comunidades tradicionais e periferias urbanas.


Os quilombos e as comunidades caiçaras produzem para si e para a sociedade alimentos diversos, orgânicos e agroecológicos. Uma vez entregues a mercados externos às comunidades, por meio da ação de atravessadores, o destino destes alimentos ainda é incerto. Seja pelo não controle da logística, seja pelas exigências legais para a comercialização de alimentos produzidos artesanalmente, perde-se a oportunidade de agregar valor aos produtos, resultando em dificuldades para se manter plantando e pescando.


A coalizão emergencial deu rosto e nome para quem produzia e para quem recebia. Além de alimentar e remunerar as pessoas pelo seu trabalho, a iniciativa fortalece a valorização dos modos de produção e a permanência nos territórios tradicionais.


Desenhada para considerar as particularidades das comunidades tradicionais, a coalizão conectou duas pontas - roça/praia e cidade - promovendo, além de tudo que já contamos, o acesso aos alimentos sociobiodiversos, resgatando, inclusive, memórias naquelas pessoas que há muito tempo não se alimentavam com o peixe seco ou com inhame. Afinal, produzir e distribuir alimentos é, mais do que tudo, uma troca de afetos.


Ouça o Diálogos na Linha D'Água na versão podcast:





Assista à gravação da live salva no Youtube:






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